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Amigos, amigos, ausências à parte

por Catarina, em 02.11.16

Muito se escreve e muito se diz sobre a amizade. Frases em fundos inspiradores que se encontram por essa internet fora, provérbios e rimas, filmes, livros, teorias sobre a amizade entram-nos pelos olhos a dentro diariamente sob a forma de finais felizes, sempre. Ninguém nos mostra o reverso da moeda, aquilo que fica quando uma amizade se acaba. A verdade é que a decisão de mudar de país trouxe para a minha vida o peso da descoberta das verdadeiras amizades, aquelas que não cobram, que entendem, que não se colocam sempre e absolutamente em primeiro lugar. E a tristeza de ver tantas outras partir. Claro que podemos sempre argumentar que se acabou, se não resistiu ao tempo e à distância, foi porque não era verdadeiro, ou forte o suficiente. Mas ainda assim dói. Alguns dos que deixei em Portugal, e com quem contava para a vida, saíram-me dela por não perceberem que, enquanto as suas vidas continuavam da mesma exacta forma, dia após dia, eu comecei a dividir a minha em duas vidas: a que tenho aqui e a que tenho lá, que fica em pausa durante o ano e se retoma nas épocas em que regresso, nos pequenos fins-de-semana de tempos a tempos, nas festas tradicionais, nas férias. Partiram por não perceberem que tudo o que vivem num ano, eu tenho de concentrar no par de semanas em que vou “a casa”. Todas as pessoas que tento ver, todos os locais aonde tenho de ir e sobretudo o tempo que devo aos meus pais se concentram nesses escassos períodos de tempo. E eu tentava de tudo, desdobrava-me em quatro e não parava um segundo para tentar agradar a todos, regressando mais cansada do que à partida. Tentava, sim, porque as pessoas por quem o fazia foram, entretanto, ficando para trás, partindo por vontade própria em busca de amigos mais disponíveis. E por isto não as culpo. Apenas pela cobrança. Porque por entre todas as teorias sobre a amizade espalhadas por aí, a mais verdadeira é a de que a amizade não se cobra. E não mesmo. Sair de Portugal foi uma decisão que tomei consciente das consequências que traria. Ainda que a escolha tenha sido minha face às opções que (não) tinha em Portugal, só quem o vive sabe que emigrar não é só fazer dinheiro e viver bem. É também um fardo muito, muito pesado e é sinónimo de solidão, de um quase abandono. É ser-se gradualmente confrontado com o facto de não ser suficientemente presente para os amigos que se deixa no país de partida e de não ser suficientemente “de cá” para os novos que se vão encontrando no país de chegada. É não ter quem nos fique com um filho doente num momento de necessidade. É não ter alguém a quem pedir ajuda num momento de aflição. É não ter a mãe que nos faz o almoço nos dias corridos e nos manda batatas e cebolas e sobras para o jantar. É não ter o pai que nos ajuda com aquele problema do carro. São as lágrimas que caem, quando nos apercebemos que não temos um contacto de emergência para dar no hospital. A minha prioridade nestas visitas a Portugal sempre foi e sempre será passar tempo com os meus pais. A culpa por estar a viver os melhores anos da vida deles à distância é pesada. O pensamento de que o tempo com eles irá um dia esgotar-se vive de mãos dadas com o tempo que passo aqui. E por isso, o meu tempo é primeiramente para eles. Que amigos de verdade não percebam isso, é-me impossível de aceitar.

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publicado às 11:44


14 comentários

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De Chic'Ana a 02.11.2016 às 12:41

Compreendo o que dizes! Parece que quando estamos por perto somos sempre requisitados e conversamos diariamente, ainda que por e-mail. Quando nos mudamos, os e-mails param! Então qual é a diferença? Enviar um e-mail para Portugal ou para a França não é o mesmo?
Beijinhos
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De Catarina a 08.11.2016 às 08:23

Olá querida Chic'Ana, é bem verdade. Não param de repente, mas vão parando! E assim se perde o contacto e muitas vezes é uma pena.
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De mami a 07.11.2016 às 08:45

adorei a tua partilha.
como emigrante que fui sinto, na plenitude do seu significado, cada uma das tuas palavras.
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De Catarina a 08.11.2016 às 08:25

Obrigada pela visita e pelas palavras gentis. Como em tudo, há os prós e os contras e a parte social é sem dúvida a que mais se perde.
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De Margarida a 07.11.2016 às 08:50

Tudo tão verdade que até dói
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De Catarina a 08.11.2016 às 08:28

Olá Margarida, e obrigado pela visita. É verdade sim e é o que me vai na alma neste momento em que perdi alguém que me era muito próximo, pelo menos do meu ponto de vista. Felizmente a vida continua e nós com ela :)
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De Nuvem a 07.11.2016 às 14:11

compreendo o que dizes. a uma escala menor, quando mudei de cidade para estudar, foi-me feita exatamente a mesma cobrança pelos amigos que ficaram... e eu senti-me mesmo mal.
força querida!
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De Catarina a 08.11.2016 às 08:32

Obrigada Nuvem, pelas palavras simpáticas. Sei que não sou caso único e também por isso decidi partilhar. Mudar de cidade ou de país não é assim tão diferente, mudam-se as rotinas e o tempo escasseia e é precisamente isso que impacta as amizades que sempre o foram de uma forma estável e que nunca tiveram de ser postas a prova.
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De r i t i n h a a 07.11.2016 às 15:07

Revi-me inteiramente no teu post.
Estou nos Açores a viver e a trabalhar há já 4 anos e, apesar de ser o mesmo país, a distância também é um entrave.
Também sinto falta de apoio, ainda mais agora que fui mãe.

Mas deu para ver aqueles que se interessam por nós e aqueles que simplesmente se foram.
Aqueles que continuam nossos amigos até vêm cá muitas vezes de férias :)
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De Catarina a 08.11.2016 às 08:36

Concordo contigo ritinha, quando dizes que ficamos a perceber quem são os verdadeiros. Eu costumo dizer que a vinda para cá funcionou como um filtro na minha vida entre os amigos de circunstância e os outros.
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De Alexandra a 07.11.2016 às 20:14

Olá Catarina! Apanhei o teu blog por acaso e revi-me tanto naquilo que dizes. E percebo-te tao bem quando dizes que vens das férias mais cansada do que quando foste...Tentas visitar familia, amigos que deixaste e corres por onde podes. Mas quando voltas, parece que despareces, já ninguem te manda uma mensagem, nem parecem interessados nem falar contigo. Só podemos contar com os pais, estes nunca se esquecem de ligar e metem sempre na nossa mala de viagem uma lembracinha de lá (um queijo, uns pasteis de nata lol).
Desejo-te tudo de bom ;)
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De Catarina a 08.11.2016 às 08:37

Verdade! Ainda agora regressei de um fim-de-semana nos meus pais e trouxe a mala carregada: papas de abóbora, castanhas, ovos moles...! :)
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De Tuga em Londres a 07.11.2016 às 22:27

Infelizmente a separação dos amigos que ficaram em Portugal é um pouco inevitável. É triste não haver sempre tempo para eles, mas o facto é que a distância faz a diferença. No entanto, aqueles que foram amigos mais presentes e próximos em Portugal, conseguem ficar se quizeres que fiquem. Apenas é preciso é arranjar forma de ir mantendo o contacto. Felizmente com toda a tecnologia que temos à nossa disponibilidade isto é mais fácil fazer hoje em dia do que em décadas passadas. Eu tenho achado muito útil um grupo de whatsapp com um pequeno grupo de amigos de Portugal que nos aproximou passado estes anos todos em que nos víamos cada vez menos. Com o grupo no whatsapp recomeçamos a trocar ideias, opiniões, partilhar momentos importantes, e voltámos a reaproximar-nos, mesmo que já não estejamos os 4 juntos simultaneamente à anos.
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De Catarina a 08.11.2016 às 08:40

Tens razão. É preciso que haja um esforço de parte a parte para que as coisas resultem e tenho amigos com quem as coisas resultam assim mesmo. Vamos mantendo o contacto ainda que de forma digital, mas estamos sempre lá. Depois há os para quem isso não chega... Os que exigem presença, os que cobram visitas, enfim... os outros. Como em tudo, há um lado b. Há que aceitar :)

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